Elétrico usado perde 11,95% em um ano — menos o Dolphin Mini, que perde 3,58%
A depreciação do elétrico usado no Brasil bateu 11,95% em 2026. Refiz a conta de TCO de 5 anos com o número real de revenda — e o ranking surpreende.
Em maio de 2025, um cliente meu fechou um elétrico compacto de R$ 240 mil convencido por uma planilha que só olhava economia de combustível. Em maio de 2026, ele me ligou para fazer a conta de venda: o carro valia, no mercado de usados, cerca de R$ 35 mil a menos do que ele pagou. A planilha original não tinha uma linha para isso. Quase nenhuma tem. E é justamente essa linha que decide se o seu elétrico foi um bom negócio ou um susto silencioso.
O que aconteceu com o valor de revenda em 2026
O dado novo é direto: o mercado nacional de elétrico usado registrou desvalorização média de 11,95% nos modelos em 2026, com a depreciação acelerada empurrada principalmente pelo custo alto de reposição de bateria, que pode chegar a R$ 80 mil em alguns modelos (Terra, CanalVE, Alô Alô Bahia). Esse 11,95% é a média — e média esconde mais do que mostra.
Porque dentro dela há uma diferença enorme entre modelos. O BYD Dolphin Mini recuou apenas 3,58% do valor em um ano, a menor desvalorização da categoria. O BYD Yuan Pro caiu 8,68%. O BYD Dolphin, mais caro, caiu 14,81% (CanalVE, Alô Alô Bahia). Em valores absolutos, quem comprou o Dolphin Mini no lançamento e vende hoje perde algo perto de R$ 17 mil — número grande, mas o melhor da categoria.
Por que essa diferença? A engenharia de revenda de elétrico tem três variáveis que combustão não tem na mesma intensidade: medo do custo de troca de bateria, ritmo de lançamento de modelos novos (que envelhece o usado mais rápido) e volume de unidades rodando (mais carros vendidos novos significam mercado de usados mais líquido e revenda mais estável). O Dolphin Mini ganha nas três: bateria menor e mais barata de repor, posição de carro de entrada e mais de 32 mil unidades vendidas em 2025, segundo a cobertura do mercado de usados.
Vale destrinchar a variável da bateria, porque ela é a que mais assusta comprador de usado e a que menos gente entende. Um pacote de bateria menor, como o do Dolphin Mini, não custa só “menos por ser menor” — ele usa química mais barata de repor e tem menos módulos para falhar. Já um elétrico de R$ 240 mil costuma carregar uma bateria grande, e a reposição dela é a linha que faz a desvalorização do usado disparar: quem compra um elétrico de cinco anos no mercado secundário precifica para baixo justamente o risco de ter que desembolsar dezenas de milhares de reais num pacote novo. Esse medo é racional, e ele se transfere direto para o preço de revenda. O comprador de segunda mão não está pagando pelo carro que vê — está descontando a bateria que ele teme ter que trocar.
A segunda variável, o ritmo de lançamentos, joga contra o elétrico de forma mais dura que contra o combustão. Quando uma marca lança um modelo novo com mais autonomia ou mais tecnologia a cada poucos meses, o usado do ano anterior envelhece rápido aos olhos do comprador — mesmo rodando perfeitamente. É o mesmo efeito de eletrônico de consumo, e é por isso que elétrico caro recém-lançado é o pior caso da curva: você compra no topo, e o lançamento seguinte derruba o seu antes mesmo de a garantia acabar.
Por que isso importa pra você
Aqui está o erro que vejo em quase toda planilha de TCO de elétrico que me mandam para revisar: ela soma economia de combustível e manutenção e esquece que depreciação costuma ser a maior despesa de um carro nos primeiros cinco anos — maior que combustível, maior que seguro. Ignorar a linha de revenda é otimizar o centavo e perder a nota.
Refiz a conta de TCO de cinco anos para dois cenários, usando os números de desvalorização anual observados em 2026 como ponto de partida. Importante: o estudo dá desvalorização de um ano; para projetar cinco anos eu apliquei a regra de engenharia de que a depreciação desacelera com o tempo (o tombo grande é no primeiro ano), então usei o percentual do primeiro ano e uma curva decrescente nos anos seguintes. Os valores de TCO abaixo são minha estimativa de trabalho, não cotação de revenda — combustível, seguro e manutenção são premissas médias para uso urbano de ~12 mil km/ano.
| Item (5 anos, estimativa) | Cenário A: Dolphin Mini (~R$ 120 mil) | Cenário B: elétrico ~R$ 240 mil de revenda fraca |
|---|---|---|
| Depreciação acumulada estimada | ~R$ 28–34 mil | ~R$ 95–115 mil |
| Energia (recarga majoritariamente em casa) | ~R$ 9–12 mil | ~R$ 11–14 mil |
| Seguro + manutenção (estimativa) | ~R$ 22–28 mil | ~R$ 35–45 mil |
| Custo total aproximado em 5 anos | ~R$ 60–74 mil | ~R$ 140–175 mil |
Olha onde o jogo é decidido: não na linha de energia (a diferença ali é de poucos milhares), mas na linha de depreciação, onde a distância é de dezenas de milhares de reais. Dois elétricos podem ter custo de recarga quase idêntico por km e mesmo assim ter TCO de cinco anos completamente diferente — porque um segura valor de revenda e o outro derrete. A planilha do meu cliente otimizava a linha errada.
O que fazer com isso agora
Se você está montando a conta de um elétrico, ajuste o método antes de ajustar o carro:
- Coloque a linha de depreciação primeiro, não por último. Estime a perda de revenda em cinco anos antes de comemorar a economia de combustível. Se a depreciação não couber no orçamento, o resto da planilha é irrelevante.
- Use o percentual real observado, não o do datasheet. Datasheet não tem campo de revenda. O número de 2026 (11,95% médio, com variação enorme por modelo) é o ponto de partida honesto.
- Prefira o modelo com histórico de revenda líquida. Carro com muitas unidades vendidas e bateria mais barata de repor (o caso do Dolphin Mini) tende a segurar valor melhor — e isso vale mais, em cinco anos, do que 20 km a mais de autonomia de catálogo.
- Desconfie do elétrico caro recém-lançado para revender cedo. É o pior caso da curva: tombo grande no primeiro ano e medo de bateria cara empurrando o usado para baixo.
A lição do meu cliente não é “elétrico é mau negócio”. É que a conta dele estava incompleta. Feita com a linha de depreciação no lugar certo, a escolha teria sido outra — e provavelmente um Dolphin Mini, não o carro de R$ 240 mil que perdeu R$ 35 mil em doze meses.
Fontes
- Terra Brasil Notícias — “Carro elétrico perde até R$ 95 mil em um ano e desvalorização chama atenção no Brasil” (04/2026)
- CanalVE — “Carros elétricos de entrada têm baixa desvalorização, diz estudo” (2026)
- Alô Alô Bahia — “BYD Dolphin Mini usado: desvalorização do elétrico é a menor da categoria” (12/03/2026)
- Anfavea / Fenabrave — dados de volume de vendas de eletrificados 2025–2026 (cobertura de mercado)
- ANEEL — referência de tarifa residencial 2026 (gov.br/aneel)
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Escrito por
Eng. Rafael Iizuka
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


