MOVER: o que a montadora precisa fazer no Brasil para manter o incentivo fiscal do seu EV
O programa MOVER condiciona IPI zero e acesso a crédito fiscal à nacionalização gradual de elétricos e híbridos. Entenda os critérios, os prazos e o que muda para quem compra um EV importado nos próximos anos.
Quando você compra um BYD Dolphin Mini, um GWM Ora 03 ou um Volvo EX30 no Brasil hoje e paga um preço que parece razoável para um elétrico, parte dessa razoabilidade vem de uma isenção de IPI que não é automática nem permanente. Ela está amarrada a um programa de política industrial chamado MOVER — e o MOVER tem condicionalidades que nenhum vendedor de concessionária vai te explicar na hora da assinatura.
A versão de 30 segundos
O MOVER (Mobilidade Verde e Inovação) é o programa federal criado em 2024 que substitui o Rota 2030. Ele distribui até R$ 19 bilhões em créditos fiscais para montadoras que cumpram metas de eficiência energética, eletrificação e, progressivamente, de conteúdo nacional. A lógica é simples no papel: quer IPI zero pro seu elétrico? Precisa investir aqui e, com o tempo, produzir aqui.
O problema é que “produzir aqui” tem um calendário — e ele vai apertando a cada biênio. O que dá pra importar praticamente do jeito que quiser em 2024-2025 vai exigir fábrica, bateria ou pelo menos carroceria montada no Brasil em 2027-2028. Ninguém te conta isso com essa clareza.
Critério 1 — Eficiência energética (vale a partir de agora)
A primeira camada do MOVER não é sobre onde o carro foi feito, mas o quanto ele consome. O programa define metas de consumo médio de frota por montadora: em 2025, a média da frota vendida no Brasil precisa estar abaixo de 18 kWh/100km para elétricos e de critérios CO₂ específicos para combustão e híbridos.
Se a montadora bate a meta, ela acumula créditos que reduzem IPI de toda a linha — incluindo elétricos importados. Se não bate, paga multa e perde parte do benefício. Na prática, isso explica por que BYD e GWM querem emplacar Dolphin Mini e Ora 03 aos montes antes de vender mais unidades de modelos menos eficientes: cada EV vendido “melhora a média” e protege o crédito fiscal de toda a linha.
Você, comprador, está — sem saber — participando da engenharia de conformidade da montadora.
Critério 2 — Investimento em P&D e produção local (apertando em 2026-2027)
A segunda camada é de investimento declarado e auditável. Para acesso integral aos créditos do MOVER, as montadoras precisam comprovar:
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Investimento mínimo em P&D no Brasil: 1,5% do faturamento líquido, crescendo para 2% a partir de 2026, conforme o Decreto 11.890/2024. Pesquisa e desenvolvimento precisam ser feitos em território nacional — não basta pagar licença para a matriz chinesa ou europeia.
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Plano de produção com cronograma auditável: a montadora declara ao MDIC quando vai começar a montar no Brasil, qual modelo e qual nível de nacionalização mínimo. O MOVER usa o conceito de PPB (Processo Produtivo Básico) — o mesmo mecanismo que existe para smartphones e eletrônicos. Sem PPB aprovado, sem crédito pleno.
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Conteúdo regional MERCOSUL: não basta ter fábrica em São Paulo — parte dos insumos precisa vir de fornecedores do MERCOSUL. No MOVER, o percentual de conteúdo regional exigido sobe de 30% em 2025 para 50% em 2028.
| Biênio | Conteúdo regional mínimo | Crédito fiscal disponível |
|---|---|---|
| 2024-2025 | 30% | Pleno (IPI zero + bônus MOVER) |
| 2026-2027 | 40% | Pleno só com PPB local aprovado |
| 2028+ | 50% | Importado puro perde parte do bônus |
Esses números são minha leitura do decreto e das portarias publicadas até maio/2026. A CAMEX pode rever por portaria sem precisar de decreto — e já fez isso duas vezes desde que o MOVER entrou em vigor.
Critério 3 — Onde cada montadora está hoje (e o que isso significa pra você)
Aqui está o dado que ninguém junta num lugar só. Com base nos planos anunciados pelas próprias montadoras e reportados pela Anfavea até maio/2026:
BYD — Fábrica em Camaçari (BA) prevista para entrar em operação no 4T de 2025, com atraso para o 1T de 2026 confirmado pela própria empresa. Inicialmente monta Dolphin e Sea Lion 6. Não produz bateria localmente — módulo vem da China. PPB provisório negociado. Implicação: BYD está na corrida, mas vulnerável se o critério de conteúdo de bateria for incluído no PPB exigido (ainda não está, mas a ala Anfavea pressiona por isso).
GWM (Haval/Ora) — Fábrica em Iracemápolis (SP) já operacional desde 2021, mas produz principalmente Haval H6 combustão e H6 PHEV. O Ora 03 é inteiramente importado da China. A GWM declarou ao MDIC um plano de localização do Ora pra 2027, mas sem data-firme de PPB aprovado. Isso significa que, hoje, o Ora 03 acessa o MOVER pela via de eficiência de frota — não pela de produção local. Se o critério apertar em 2027, o Ora ou sobe de preço ou ganha concorrente nacional.
Stellantis (Jeep, Fiat) — Tem fábricas em Betim e Goiana há décadas. Anunciou produção de Jeep híbrido plug-in em Goiana para 2026 e Fiat BEV (possivelmente derivado da plataforma STLA Medium) para 2027. É a montadora em melhor posição para o MOVER de 2028 — conteúdo regional já alto, P&D local consolidado, PPB sem dificuldade.
Volvo — Importa integralmente da Bélgica (EX30) e China (EX40). Não tem fábrica no Brasil. Usa o critério de eficiência de frota para acessar crédito. É a mais exposta se o MOVER endurecer critério de produção local — o EX30 pode ter preço afetado a partir de 2027.
Na minha leitura, o comprador que mais vai sentir o MOVER é quem está de olho no Ora 03 ou no EX30 — os EVs de maior risco regulatório nos próximos 18 meses. Quem compra Dolphin Mini está comprando o EV da montadora que mais apostou no Brasil; o risco é menor, ainda que não seja zero.
Onde isso falha
Minha análise tem um ponto fraco óbvio: o MOVER é um programa administrado por portaria do MDIC e resolução da CAMEX — não por lei ordinária. Isso significa que os critérios podem ser alterados sem aprovação do Congresso. Em 2025, o governo já afrouxou o calendário de PPB duas vezes sob pressão das montadoras chinesas. Se o ciclo eleitoral de 2026 pressionar por popularidade, o programa pode flexibilizar novamente — e minha tabela do biênio 2028 vira papel.
Além disso, o Brasil ainda não tem cadeia de fornecimento local de células de bateria. Sem célula nacional, o PPB de elétrico vai ter sempre uma exceção embutida pro módulo de bateria — o que muda completamente o cálculo de conteúdo regional. Produção “local” de EV no Brasil, honestamente, é mais montagem do que manufatura verticalizada.
O que fazer com essa informação
Três pontos práticos antes de fechar a compra:
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Pergunte ao vendedor qual é o PPB do modelo que você está comprando — se ele não souber responder, é sinal de que o preço que você vê pode mudar com mais facilidade do que o esperado.
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Se o modelo é inteiramente importado (Ora 03, EX30, EX40), inclua no seu cálculo de TCO um risco de 5-15% de alta de preço em reposição e revisão a partir de 2027, caso o acesso a crédito seja reduzido. Falei mais sobre isso em como calcular o custo total de cinco anos de um elétrico.
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Leia o calendário tributário completo dos EVs — o MOVER não opera isolado. Ele se sobrepõe ao IPI, ao ICMS estadual e ao IPVA. Entenda como esses camadas se encaixam em tributação de elétricos no Brasil: o calendário de 2026 e nos incentivos estaduais de IPVA e ICMS por estado.
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Consulte a lei base: o marco legal do MOVER está consolidado na legislação federal de carros elétricos no Brasil — leitura útil antes de qualquer compra.
Fontes
- Decreto Federal 11.890/2024 — institui o MOVER e define critérios de elegibilidade
- MDIC — portaria de regulamentação do PPB para veículos eletrificados, novembro/2024
- Anfavea — planos de localização declarados por montadora ao MDIC, consolidado mai/2026
- CAMEX — Resolução 17/2025, ajuste de cronograma de conteúdo regional
- Bloomberg Línea — entrevista com secretário Uallace Moreira (MDIC), 08/05/2026
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total. Editor do Carros Elétricos Brasil.


