SPVAT: o seguro obrigatório voltou e o carro elétrico paga igual ao combustão
O DPVAT virou SPVAT em 2025 e voltou a ser cobrado de todo veículo motorizado, inclusive elétricos. Explico quanto custa, quem administra, o que cobre — e por que isso muda o TCO de quem ignorou essa linha no cálculo.
Tem um argumento que aparece toda vez que alguém compara o custo de um elétrico com o de um combustão: “elétrico não paga DPVAT”. Em 2022 e 2023, isso era verdade — o seguro obrigatório tinha sido suspenso por decisão legislativa. Em 2024, voltou, com novo nome. E em 2026, está sendo cobrado de todo veículo motorizado matriculado no Brasil — incluindo BYD Dolphin Mini, GWM Ora 03, Renault Kwid E-Tech e qualquer outro elétrico que você esteja considerando.
O ponto não é que o SPVAT arruína o TCO do elétrico. O valor é pequeno. O ponto é que essa é exatamente o tipo de linha que desaparece dos comparativos entusiastas — e reaparece na hora do licenciamento, junto com outras cobranças que também “ninguém avisou”.
A tese
O SPVAT não é notícia ruim para quem compra elétrico — é notícia neutra que o mercado estava comunicando errado. O seguro obrigatório é pago por todo veículo motorizado, cobre cobertura de acidente que o seguro voluntário não contempla (terceiros sem culpa definida, pedestre atropelado), e o valor é idêntico independentemente da motorização. Quem incluía “zero DPVAT” como vantagem do elétrico estava contando com uma suspensão temporária que já terminou.
Evidência 1 — O que é o SPVAT e como ele voltou
O Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre — DPVAT no acrônimo antigo — existia desde 1974. Em 2019, o governo extinguiu o fundo operado pela Seguradora Líder. Em 2023, a Lei 14.671/2023 criou o SPVAT (Seguro de Pessoas em Acidentes de Trânsito), com nova administração: passou para a Caixa Seguridade, vinculada à Caixa Econômica Federal, com aprovação e fiscalização da SUSEP.
A diferença nominal importa pouco para o motorista. O que importa: o SPVAT é compulsório, integrado ao Documento de Arrecadação de Receitas Federais (DARF) que acompanha o licenciamento anual, e não há como pagar o licenciamento sem ele. A cobrança voltou em 2024 para todos os veículos, elétricos incluídos.
A Caixa Seguridade estima que o Brasil tem cerca de 115 milhões de veículos registrados (SUSEP, dados 2024). Elétricos e híbridos não têm alíquota diferenciada — a tabela é por categoria do veículo (automóvel, motocicleta, caminhão), não por motorização.
Evidência 2 — Quanto custa e o que cobre
Para automóveis de passeio, o valor do SPVAT em 2026 está na faixa de R$ 50 a R$ 80 por exercício — o CNSP publica a tabela atualizada todo ano no Diário Oficial. O número exato para 2026 depende da categoria do veículo e da resolução vigente na data do seu licenciamento; confira o valor atual em gov.br/susep.
O que o SPVAT cobre, em resumo:
| Cobertura | Limite por vítima (referência 2025) |
|---|---|
| Morte | R$ 13.500 |
| Invalidez permanente | Até R$ 13.500 (proporcional ao grau) |
| Despesas médico-hospitalares (DAMS) | Até R$ 2.700 |
| Reembolso de despesas funerárias | Até R$ 3.000 |
O SPVAT cobre qualquer pessoa envolvida em acidente de trânsito com veículo motorizado, independentemente de culpa — pedestre, passageiro, ciclista. Esse é o ponto que o seguro voluntário não resolve da mesma forma, porque o voluntário costuma ter franquia e exige definição de responsabilidade. O SPVAT é o colchão que existe antes de qualquer discussão jurídica.
Para quem compra elétrico com a narrativa de “custo total menor”, o SPVAT entra exatamente da mesma forma que para um Onix 1.0. Sem diferença. E quem estava citando “zero DPVAT” como vantagem estava contando com uma exceção que já não existe.
Evidência 3 — O que isso muda no cálculo real de TCO
Sozinho, o SPVAT não move a agulha do TCO. R$ 65/ano é R$ 5,40/mês — irrelevante frente a um financiamento ou ao custo de recarga. O problema não é o valor do SPVAT; é o hábito de montar o TCO do elétrico zerando o que não é garantido, ou ignorando o que voltou.
Quando refaço o TCO completo de um elétrico no Brasil, a lista de linhas que desaparecem dos comparativos superficiais é previsível: pneu (desgaste maior pelo torque instantâneo), seguro voluntário (25-40% mais caro que combustão equivalente para muitas faixas), SPVAT (ignorado por quem citou a suspensão de 2022 como permanente), e bandeira tarifária (que afeta custo de recarga em casa).
O seguro voluntário do elétrico é assunto separado — e já tem distorção própria que detalho em seguro de carro elétrico no Brasil: o que explica o preço e como comparar apólices. O SPVAT não é voluntário, não tem variação por perfil do condutor, não tem franquia. É linha fixa no licenciamento, ponto final.
O contra-argumento honesto
Alguém pode dizer: “Jhonathan, R$ 65 por ano não é argumento. Por que escrever sobre isso?” É uma crítica justa. Mas o SPVAT não é sobre o valor — é sobre o padrão de comunicação do mercado de elétricos no Brasil.
O mesmo padrão que sumiu com o SPVAT é o que exagera autonomia WLTP, esconde cláusulas de garantia de bateria, e omite que a tarifa de importação de 35% já está no calendário. Eu já escrevi sobre esse calendário inteiro em tributação de elétricos em 2026: o que muda mês a mês. O SPVAT é um caso pequeno do mesmo problema grande: decisão de compra feita com dado incompleto.
Se o vendedor, o blog de entusiasta ou a planilha que você baixou da internet ainda lista “zero DPVAT” como vantagem do elétrico, é sinal de que aquela fonte não foi atualizada desde 2023. E daí cabe perguntar o que mais nela está desatualizado.
Onde isso te leva
Duas ações concretas:
Se você está comprando elétrico agora: some o SPVAT no seu cálculo de custo anual — não porque o valor é alto, mas porque custo real é custo real. E enquanto estiver revisando a planilha, confira também os incentivos estaduais de IPVA e ICMS que ainda existem — esses sim movem a agulha do TCO de verdade, e variam por estado.
Se você já tem elétrico: o SPVAT aparece embutido no DARF do licenciamento. Você provavelmente já pagou sem perceber, porque vem junto com IPVA e taxas do DETRAN. Se sua última renovação foi feita e você não viu a linha, peça o detalhamento do boleto.
O elétrico tem vantagens reais de custo — principalmente em energia e manutenção. Mas essas vantagens são mais críveis quando a conta inclui tudo, inclusive o que voltou a ser cobrado depois de um intervalo de três anos.
Fontes
- Lei 14.671/2023 — cria o SPVAT e define administração pela Caixa Seguridade. Planalto
- SUSEP — Superintendência de Seguros Privados, regulamentação e tabelas SPVAT. gov.br/susep
- CNSP — Conselho Nacional de Seguros Privados, resolução anual de valores. gov.br/susep
Escrito por
Jhonathan Meireles
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total. Editor do Carros Elétricos Brasil.


