Dois elétricos em casa: como dimensionar a recarga sem explodir o padrão de energia
Com dois EVs na garagem, wallbox simples pode não ser suficiente. Engenheiro mostra o cálculo real de carga, gestão inteligente e o que a ABNT NBR 17019 exige para duas tomadas.
O casal tinha dois Dolphin Mini. Bonito no papel. Mas quando os dois plugaram ao mesmo tempo, o disjuntor da garagem virou a chave seis vezes em uma semana. Na sétima vez, ligaram pra mim.
O problema não era o wallbox. Era que ninguém tinha feito a conta antes de instalar o segundo — e o padrão de entrada da casa não suportava 14 kW simultâneos. Esse erro está se repetindo pelo Brasil à medida que famílias chegam no segundo elétrico. E ele custa caro: reinstalação, reforço de padrão, às vezes troca de transformador de rua.
Esta é a história desse caso — e o que fazer diferente.
O que aconteceu
A casa ficava em São Paulo, zona oeste. Padrão de entrada monofásico 220 V com disjuntor geral de 60 A, o suficiente para uma família com geladeira, ar-condicionado, chuveiro e o primeiro wallbox de 7,4 kW (32 A). Funcionava bem.
Quando chegou o segundo Dolphin Mini, instalaram um segundo wallbox idêntico na vaga do lado. Sem gestor de carga, sem reforço do padrão. Dois wallboxes de 32 A somam 64 A — mais que o disjuntor geral de 60 A. Com mais o chuveiro e o ar acesos à noite, o sistema caía.
O técnico que instalou o segundo wallbox simplesmente não fez o cálculo de demanda simultânea. Não é incomum: a maioria dos instaladores é competente em elétrica predial mas não tem experiência com a ABNT NBR 17019 em configuração dupla.
Por que isso importa pra você
Se você já tem um EV ou está chegando no segundo, o cálculo muda. Um wallbox sozinho é quase sempre simples. Dois wallboxes na mesma residência exigem uma das três saídas abaixo — e cada uma tem custo e limitação diferente.
Saída 1 — Gestor de carga (load management)
É a solução mais econômica quando o padrão de entrada tem folga de 20-30 A acima do consumo base da casa. Um gestor de carga (ou EVSE com DLM — Dynamic Load Management) monitora o consumo total da residência em tempo real e divide a corrente disponível entre os dois wallboxes, reduzindo um quando o outro precisa de mais.
Na prática: se a casa consome 20 A e o padrão suporta 60 A, restam 40 A disponíveis para os dois carros. O gestor divide 20 A para cada um. Se o ar entrar e o consumo subir pra 35 A, o gestor divide 25 A entre os dois carros — 12,5 A cada, equivalente a ~2,75 kW por carro. O carro ainda carrega, só mais devagar.
Equipamentos com DLM certificados para o Brasil em 2026: Wallbe Pro 2.0, KEBA KeContact P30 c-series, Webasto Live Plus. Custo médio do gestor externo: R$ 800 a R$ 1.800, fora instalação (ABVE, 2026).
Saída 2 — Reforço do padrão de entrada
Quando o padrão já opera perto do limite, gestor não resolve: não dá pra dividir o que não existe. Nesse caso, precisa reforçar a entrada.
Em residência monofásica 220 V com 60 A, reforçar para 100 A resolve a maioria dos casos de dois EVs. O processo envolve: pedido formal à concessionária, troca do ramal de entrada, troca do medidor (se necessário), troca do quadro geral ou adição de um quadro de distribuição dedicado para EVs.
Custo estimado em SP (Enel SP): R$ 2.800 a R$ 6.500, dependendo da distância entre o poste e o quadro e do estado da fiação existente. Prazo médio de aprovação pela Enel: 15 a 45 dias (Engehall, 2026).
Saída 3 — Wallbox com temporizador escalonado
A solução mais barata e menos técnica: configurar os dois wallboxes para começar em horários diferentes. O primeiro carrega das 22h às 2h, o segundo das 2h às 6h. Sem gestor, sem reforço — só agendamento.
Funciona bem se os dois carros não precisam de carga completa todo dia. Falha quando um dos dois chega com bateria muito baixa e o temporizador ainda não chegou na sua janela. É uma gambiarra engenheiramente aceitável como medida temporária, não como projeto definitivo.
O que a NBR 17019 diz sobre instalação dupla
A norma não trata especificamente de “dois wallboxes”, mas seus princípios se aplicam sem exceção para cada ponto de recarga individualmente — e o cálculo de demanda total é exigência da NBR 5410 para o quadro geral.
O que não é negociável em cada wallbox, independentemente de quantos há na residência:
- Circuito exclusivo e dedicado para cada wallbox
- Fator de demanda 1,0 (100%) por ponto de recarga, salvo quando há sistema certificado de gestão de carga (DLM)
- DR Tipo B por circuito (ou Tipo A + RDC-DD integrado ao wallbox)
- DPS no quadro
- ART de engenheiro responsável por toda a instalação
Com DLM certificado, a norma aceita reduzir o fator de demanda — mas o gestor precisa ser certificado IEC 61851-1 e a documentação precisa acompanhar a ART. Instalador que faz “só na mão” sem o sistema certificado corre risco de não homologar a instalação em caso de sinistro.
Para quem mora em condomínio, a situação é ainda mais específica: dois wallboxes em vagas individuais podem exigir dois ramais de medição individuais, dependendo do regimento do condomínio e da norma estadual de bombeiros. A Lei SP 18.403/2026 garante o direito do condômino, mas o projeto técnico precisa ser aprovado pelo síndico e bombeiros.
O que fazer com isso agora
O casal de São Paulo resolveu com a Saída 1: instalaram um gestor de carga Webasto entre os dois wallboxes existentes. O padrão de entrada foi reforçado de 60 A para 80 A (custo: R$ 3.200 com a Enel SP). Hoje os dois carros carregam toda noite sem uma queda sequer.
Se você está planejando o segundo EV, a sequência que recomendo é:
- Mapeie o padrão atual: veja no medidor o limite contratado com a distribuidora (geralmente 60 A ou 80 A em residências comuns)
- Some a demanda base da casa: use sua última fatura de energia e calcule a corrente média nos horários de pico noturno (a distribuidora tem esse dado no app desde 2024)
- Projete com o engenheiro: leve esses números pro responsável técnico antes de comprar o segundo wallbox
- Decida entre DLM ou reforço de padrão: DLM é mais barato se houver folga; reforço resolve definitivamente
- Documente tudo com ART: seguro, concessionária e sinistros futuros vão pedir
O custo de fazer certo antes: R$ 800 a R$ 6.500 dependendo da saída escolhida. O custo de fazer errado depois: reinstalação completa mais eventual dano ao quadro, que já vi sair acima de R$ 12.000 em casos complicados.
Para entender o custo mensal de recarregar dois EVs em casa e se a tarifa branca ainda compensa nesse cenário, veja o cálculo completo em tarifa branca com wallbox: a conta real em três cenários.
E se você está no início da jornada e ainda decidindo qual wallbox instalar para o primeiro EV, o ponto de partida correto é entender o wallbox 7 kW vs 22 kW para residência no Brasil antes de adicionar qualquer complexidade.
Fontes
- ABVE — Associação Brasileira do Veículo Elétrico
- ABNT NBR 17019:2022 — Instalações elétricas de baixa tensão: requisitos para instalação de equipamentos de recarga para veículos elétricos
- Engehall — Guia de instalação de wallbox residencial (2026)
- RAC Engenharia Elétrica — NBR 17019 e gestão de carga em residências
- Caso clínico anônimo — residência São Paulo zona oeste, jan/2026 (uso de dados com autorização)
Escrito por
Eng. Rafael Iizuka
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


