Pular para o conteúdo
segunda-feira, 20 de julho de 2026
Carros Elétricos Brasil CARROS ELÉTRICOS BR
Recarga

kW e kWh na recarga: por que confundir os dois te faz comprar a wallbox errada

kW é velocidade, kWh é distância. Entender essa diferença muda qual wallbox você compra, quanto paga de conta de luz e quanto tempo o carro fica na tomada. Guia técnico sem enrolação.

Eng. Rafael Iizuka 7 min de leitura
Painel de carro elétrico mostrando potência de recarga em quilowatts
Painel de carro elétrico mostrando potência de recarga em quilowatts

Outro dia um cliente me mandou print de um anúncio de wallbox e perguntou: “Rafael, essa de 22 kWh é melhor que a de 7 kWh?” Tive que responder que não existe wallbox de 22 kWh. Existe wallbox de 22 kW. E que a confusão de uma letrinha no fim ia, literalmente, fazer ele gastar dinheiro à toa numa instalação que a casa dele nem aguenta.

Essa troca acontece o tempo todo. Vendedor fala kW, anúncio escreve kWh, manual mistura os dois, e o dono do carro fica achando que está comprando “mais bateria” quando, na verdade, está pagando por velocidade de recarga que o carro dele nem consegue puxar.

Vamos desfazer essa bagunça de vez. É a diferença de conceito mais importante de toda a recarga elétrica — e a que menos gente explica direito.

A versão de 30 segundos

kW (quilowatt) é velocidade. kWh (quilowatt-hora) é quantidade.

  • kW = quão rápido a energia entra na bateria. É a “vazão da torneira”.
  • kWh = quanto de energia cabe ou já entrou. É o “tamanho do balde” e quanto de água tem dentro.

Wallbox e carregador se medem em kW (velocidade). Bateria e conta de luz se medem em kWh (quantidade). Confundir os dois é como confundir “litros por minuto” com “litros”. São grandezas diferentes — uma é a outra dividida pelo tempo.

Guarde a fórmula que resolve 90% das dúvidas:

Tempo de recarga (h) = energia que falta (kWh) ÷ potência do carregador (kW)

Agora vamos abrir cada conceito.

Conceito 1 — kW é a torneira

Quilowatt mede potência: a quantidade de energia transferida por unidade de tempo. Quando o anúncio diz “wallbox de 7 kW”, está dizendo a vazão máxima que aquele equipamento consegue empurrar pra dentro do carro.

Pense numa torneira. Uma de 7 kW enche o balde mais devagar; uma de 22 kW, mais rápido — se o balde aceitar receber nessa velocidade. E aqui mora o erro mais caro.

O carro tem um limite próprio chamado carregador de bordo (onboard charger), que é o componente dentro do veículo que converte a corrente alternada da tomada pra carregar a bateria. O Dolphin Mini tem carregador de bordo de 6,6 kW. O Atto 3, de 7 kW. Isso significa que mesmo plugado numa wallbox de 22 kW, o Dolphin Mini só vai puxar 6,6 kW. Os outros 15 kW de “torneira” ficam fechados — você pagou por uma instalação trifásica cara que o carro nem usa.

Foi exatamente o que tentei evitar pro meu cliente. Eu já expliquei em detalhe por que a wallbox de 7 kW resolve pra quase todo mundo, e a de 22 kW raramente compensa — a regra é casar a potência da wallbox com o carregador de bordo do carro, não com o número maior do catálogo.

Conceito 2 — kWh é o balde

Quilowatt-hora mede energia acumulada: é potência multiplicada por tempo. Um aparelho de 1 kW ligado por 1 hora consome 1 kWh. Simples assim.

Na prática do elétrico, kWh aparece em dois lugares:

No tamanho da bateria. Um Dolphin Mini tem bateria de 38 kWh (versão Comfort). Isso é o “tamanho do balde”: a energia total que cabe quando está 100% cheio. O Atto 3 tem 60 kWh — balde maior, mais autonomia.

Na conta de luz. A concessionária cobra por kWh consumido. Se você colocou 30 kWh de energia no carro durante o mês e sua tarifa é R$ 0,90/kWh, gastou R$ 27 de energia naquela recarga. É só multiplicação. Eu mostro essa conta fechada com tarifa real e bandeira tarifária no comparativo de quanto sai carregar em casa contra um eletroposto.

A sacada: o kWh é a única unidade que aparece tanto na sua bateria quanto na sua fatura. É a “moeda” da energia. Por isso eficiência se mede em kWh/100km — quantos quilowatts-hora o carro gasta pra rodar 100 km. Quanto menor, mais barato roda.

Conceito 3 — kW e kWh trabalham juntos no tempo

Aqui é onde a confusão custa horas da sua vida. Use a fórmula:

Tempo = energia que falta ÷ potência.

Exemplo real. Dolphin Mini com 20% de bateria, quero chegar a 80%. São 60% de uma bateria de 38 kWh = 22,8 kWh que faltam. Na minha wallbox de 7 kW:

22,8 kWh ÷ 6,6 kW (limite do carro, não os 7 kW da wallbox) = 3,5 horas.

Agora o mesmo carro num eletroposto DC de recarga rápida de 50 kW. A corrente contínua não passa pelo carregador de bordo — vai direto pra bateria. Os mesmos 22,8 kWh entram em:

22,8 kWh ÷ 50 kW = 0,46 hora, ou cerca de 27 minutos.

Mesma quantidade de energia (kWh), velocidade diferente (kW), tempos completamente diferentes. É por isso que recarga em casa é pra pernoite e recarga DC é pra viagem. E é por isso que perguntar “quantos kWh carrega por hora?” não faz sentido — o que carrega por hora é medido em kW, que é a própria potência.

Montei uma tabela rápida com a mesma recarga de 20% a 80% (22,8 kWh) em diferentes potências:

PotênciaTipoTempo (Dolphin Mini, 22,8 kWh)
2,2 kW (tomada comum)AC~10h20
3,7 kW (tomada 220V reforçada)AC~6h10
6,6 kW (limite do carro em wallbox 7-22 kW)AC~3h30
50 kW (eletroposto DC)DC~27 min
150 kW (eletroposto DC, mas carro limita)DC~27 min (carro só puxa 50 kW)

Repare na última linha: na recarga DC de 150 kW, o tempo não cai, porque o teto de recarga DC do Dolphin Mini é 50 kW. A “torneira” maior não adianta se o “balde” não aceita receber tão rápido. Esse é o mesmo princípio que explica por que a curva de recarga DC despenca depois dos 80%: o carro vai fechando a torneira pra proteger a química da bateria.

Onde isso falha

A fórmula tempo = energia ÷ potência é uma boa aproximação, mas não é exata na vida real. Três motivos:

Perdas de conversão. Recarga AC perde de 8% a 15% de energia no carregador de bordo (vira calor). Você paga por 33 kWh na conta pra colocar 30 kWh na bateria. Isso aumenta o tempo e o custo reais um pouco acima da conta limpa.

A curva de recarga não é reta. Em DC, a potência cai conforme a bateria enche — então “50 kW” é o pico, não a média. De 20% a 80% você fica perto do pico; de 80% a 100% a velocidade despenca. Por isso quase todo mundo recomenda parar em 80% na estrada.

Temperatura. No frio, a bateria limita a potência de recarga pra se proteger. Numa manhã de 8°C em Curitiba, seu DC de 50 kW pode começar puxando 30 kW até a bateria aquecer.

Mesmo com essas ressalvas, a fórmula te dá uma estimativa boa o suficiente pra decidir wallbox, planejar parada de viagem e conferir se um anúncio está falando bobagem. E te blinda do vendedor que jura que a wallbox “de 22 kWh” carrega seu carro em dez minutos.

A regra que eu repito pra todo cliente: kW é o que você contrata; kWh é o que você paga e o que move o carro. Decore essa frase e você nunca mais cai na pegadinha da letrinha.


Fontes

  • ABNT NBR IEC 61851-1: Sistema de recarga condutiva para veículos elétricos — requisitos gerais (definições de potência AC/DC) — abnt.org.br
  • BYD Brasil: Especificações técnicas Dolphin Mini (capacidade de bateria e carregador de bordo) — byd.com/br
  • U.S. Department of Energy / Alternative Fuels Data Center: EV Charging Power Levels (definições kW vs kWh, eficiência de conversão AC) — afdc.energy.gov
E

Escrito por

Eng. Rafael Iizuka

Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.

Continue lendo · Recarga

Ver tudo →