Eletroposto público vs recarga em casa: qual sai mais barato por km em 2026
A conta que ninguém mostra: custo real por km no eletroposto AC, DC rápido e wallbox residencial. Com tarifa BR atualizada e os modelos mais vendidos.
Semana passada um cliente me mandou a fatura de uma viagem SP-Campinas de ida e volta — 280 km rodados com BYD Dolphin Mini usando eletropostos públicos AC em shoppings. Ele ficou chocado: R$ 78 em recarga. “Rafael, meu cunhado com carro a gasolina gastou R$ 70. Como assim?”
A resposta não é que elétrico é pior. É que eletroposto e recarga em casa são dois produtos completamente diferentes em custo por quilômetro — e confundir os dois muda toda a lógica do que significa “economizar com elétrico”.
O que importa decidir antes de comparar
Antes do ranking, três critérios que vão calibrar qualquer número que você vir por aí:
Eficiência real do modelo. Cada carro consome uma quantidade diferente de kWh por 100 km rodados. No BYD Dolphin Mini, minha referência de uso real em clima tropical com ar no 22°C é 15 kWh/100 km. O Atto 3, mais pesado, fica em torno de 18 kWh/100 km. Toda conta de custo por km começa aqui — não em autonomia WLTP de catálogo.
Tarifa residencial da sua distribuidora. O Brasil tem 63 distribuidoras e tarifas que variam de R$ 0,62/kWh (em algumas capitais com TUSD embutido) a R$ 1,15/kWh em pico horário em São Paulo (ENEL/Neoenergia, grupo A4/B1 com bandeira tarifária vermelha). Usar uma tarifa média nacional obscurece o que importa: a conta que você paga.
Preço por kWh no eletroposto público. Aqui mora o maior mal-entendido. Eletroposto AC de shopping cobra diferente de eletroposto DC rápido na beira de rodovia. E dentro do DC, 50 kW não é a mesma proposta de negócio que 150 kW. Cada modalidade tem uma lógica de preço própria.
Comparativo: custo real por km em cada modalidade
Montei esta tabela a partir de levantamento editorial direto nos aplicativos Tupinambá, Eletric, Shell Recharge e BeCharge em junho/2026, e da tarifa de energia residencial B1 com bandeira verde publicada pela ANEEL. Usei o Dolphin Mini como carro-referência (15 kWh/100 km) porque é o mais vendido no segmento popular:
| Modalidade | Tarifa típica (R$/kWh) | Custo/100 km (Dolphin Mini) | Equivalente gasolina* |
|---|---|---|---|
| Wallbox em casa (tarifa fora de pico) | R$ 0,72–0,89 | R$ 10,80–13,35 | ~0,5–0,6 L/100 km |
| Tomada comum modo 2 (noturno) | R$ 0,72–0,89 | R$ 10,80–13,35 | ~0,5–0,6 L/100 km |
| Eletroposto AC shopping (30 min grátis) | R$ 0 a R$ 0,50 | R$ 0–7,50 | — |
| Eletroposto AC pago (Eletric, Tupinambá) | R$ 1,10–1,60 | R$ 16,50–24,00 | ~0,75–1,1 L/100 km |
| Eletroposto DC 50 kW (corredor BR) | R$ 1,80–2,40 | R$ 27,00–36,00 | ~1,2–1,7 L/100 km |
| Eletroposto DC 150 kW (premium) | R$ 2,20–3,10 | R$ 33,00–46,50 | ~1,5–2,1 L/100 km |
*Equivalência com gasolina a R$ 6,20/L e consumo médio de gasolina de 11 km/L (22 kWh_equiv/100 km).
O que salta da tabela: recarga residencial é 3 a 5 vezes mais barata que DC rápido de corredor. O que aconteceu com o cliente do exemplo lá em cima? Ele rodou 280 km em eletroposto AC pago de shopping — tarifa de R$ 1,40/kWh, 42 kWh consumidos, R$ 58,80 só em energia (mais estacionamento cobrado à parte). A conta ficou bem diferente do que o cartão de crédito com o frete de gasolina do cunhado.
Minha leitura: onde cada modalidade faz sentido
Aqui está a opinião que formei em anos projetando instalações e conversando com donos de EV:
Recarga em casa é o coração do custo. Se você tem garagem própria (em casa ou vaga exclusiva em condomínio com ponto de energia), 90% da sua recarga deve acontecer aí. Custa menos de R$ 0,90/kWh, você carrega dormindo, e o carro fica sempre cheio de manhã. A economia frente ao combustível só existe de verdade se isso for a regra, não a exceção. O processo de instalar um ponto dedicado eu já destrinchei em quanto custa instalar wallbox em casa: a conta real com material e ART.
Eletroposto AC de shopping é bônus, não estratégia. Shopping com AC gratuito (muitos ainda oferecem) é oportunidade. Mas depender de AC pago em shopping como estratégia de recarga sai mais caro do que a gasolina que você economizou na semana. Não é cenário sustentável.
DC rápido de corredor é pra viagem, não pra rotina. R$ 2,50/kWh num DC de 150 kW em rodovia é caro — mas paga agilidade. Uma sessão de 20 minutos adiciona 150 km de autonomia. Compensa na viagem. Como hábito diário seria financeiramente irracional.
O modelo do elétrico como “viagem barata” só funciona com rede de casa. Quem mora em apartamento sem ponto de recarga e depende exclusivamente de eletropostos pagos dificilmente economiza frente ao combustível no Brasil de 2026. Esse é o contraponto honesto que falta na maioria das análises de EV.
O contra-argumento honesto
Essa tese “recarga em casa é o que salva” tem um limite óbvio: pressupõe que você tem onde instalar. Para moradores de apartamento sem vaga ou em condomínio com ANEEL ainda não tendo facilitado o acesso ao medidor individual — o cenário muda. Abordei as regras de instalação em condomínio em wallbox em condomínio: instalação passo a passo e regras 2026, mas o fato é que nem toda situação predial tem solução simples. Nesse caso, o elétrico pode ainda compensar no custo de manutenção e IPVA reduzido, mas a economia em energia vai ser menor do que o marketing promete.
Onde isso te leva
A decisão de comprar um elétrico não pode ser feita olhando só pra tarifa residencial, e também não pode ser feita com medo de eletroposto. A lógica é:
- Quantos km por semana você faz em rotina?
- Quantos você faz em viagem?
- Você tem onde instalar recarga em casa ou na empresa?
Se 70% dos seus km são rotina com recarga em casa: a conta fecha com folga — você vai pagar de R$ 10 a R$ 13 por 100 km contra R$ 50+ de gasolina. Se 40% dos km são viagem com DC pago: a conta ainda fecha, mas com margem menor. Se você não tem recarga em casa: refaça a conta com realismo.
Para entender o impacto do custo de recarga na fatura de luz e no custo total de propriedade, o passo seguinte é ler quanto o carro elétrico aumenta a fatura de luz por mês — a matemática ali fecha o ciclo de custo que começa neste post.
Fontes
- ANEEL — Agência Nacional de Energia Elétrica. Tarifas de energia elétrica residencial (bandeiras tarifárias B1, junho/2026). www.aneel.gov.br
- ABVE — Associação Brasileira do Veículo Elétrico. Dados de infraestrutura pública de recarga no Brasil, 2025. www.abve.org.br
- Tupinambá Energia — Rede de eletropostos públicos, tabela de preços por kWh consultada em junho/2026. www.tupinamba.energy
- Levantamento editorial de tarifas de eletroposto (BeCharge, Eletric, Shell Recharge) e eficiência real de modelos populares, junho/2026.
Escrito por
Eng. Rafael Iizuka
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


