Qual elétrico de entrada custa menos por km no Brasil? Eu fiz a conta — e o resultado é contraintuitivo
Comparativo real de custo por km rodado entre BYD Seagull, Dolphin Mini, GWM Ora 03 e Geely EX2 Pro. A eficiência kWh/100km muda tudo — e o carro mais barato na compra não é o mais barato pra rodar.
Quando o BYD Seagull chegou ao Brasil com preço de etiqueta abaixo de R$ 120 mil, metade da internet decretou: “esse vai ser o elétrico mais barato de rodar do país.” A lógica parece óbvia — carro mais barato, menor custo. Só que tem um problema: ninguém botou o número na ponta do lápis.
Eu botei. E o resultado mudou o que eu recomendo quando alguém me pergunta “qual elétrico de entrada compensa no dia a dia”.
A tese
O preço de compra de um elétrico de entrada é o dado mais fácil de comparar — e o menos útil. O que importa pra quem usa o carro todo dia é custo por km rodado. E aí, a eficiência em kWh/100km vira o fator que separa o bom negócio do caro negócio disfarçado de barato.
Nenhum site de carro no Brasil compara elétrico de entrada por essa métrica. Vou fazer aqui.
As três evidências
1. A eficiência real dos quatro modelos não é o que o catálogo diz
Primeiro, os dados de eficiência que usei. Não peguei do manual — peguei de rodadas reais documentadas por proprietários e do que medi nas minhas próprias rotas. Os números do ciclo INMETRO/WLTP ficam sempre 15-22% melhores que o mundo real BR com ar-condicionado, trânsito urbano e asfalto de qualidade variável.
| Modelo | kWh/100km (INMETRO) | kWh/100km (real BR estimado) | Bateria útil (kWh) |
|---|---|---|---|
| BYD Seagull | 13,5 | 16,5 | 38,8 |
| BYD Dolphin Mini | 14,2 | 17,2 | 38,8 |
| GWM Ora 03 | 15,1 | 18,3 | 48,0 |
| Geely EX2 Pro | 14,8 | 18,0 | 47,7 |
Olhando só essa tabela, o Seagull parece imbatível. Mas aí vem o segundo passo.
Se quiser entender por que o INMETRO diverge tanto do real, explico com mais detalhe no post sobre eficiência kWh/100km e custo real no Brasil.
2. O custo por km depende de onde você carrega — e isso muda o vencedor
Aqui é onde a conta fica interessante. Peguei três cenários de tarifa de energia que cobrem a maioria dos compradores desse segmento:
- Casa (tarifa convencional, média SP): R$ 0,89/kWh
- Casa (tarifa branca, horário fora de ponta): R$ 0,63/kWh
- Eletroposto público (média BR): R$ 2,10/kWh
Custo por km (R$/km) em casa, tarifa convencional:
| Modelo | Eficiência real (kWh/100km) | R$/km (conv.) | R$/km (branca) | R$/km (eletroposto) |
|---|---|---|---|---|
| BYD Seagull | 16,5 | R$ 0,147 | R$ 0,104 | R$ 0,347 |
| BYD Dolphin Mini | 17,2 | R$ 0,153 | R$ 0,108 | R$ 0,361 |
| GWM Ora 03 | 18,3 | R$ 0,163 | R$ 0,115 | R$ 0,384 |
| Geely EX2 Pro | 18,0 | R$ 0,160 | R$ 0,113 | R$ 0,378 |
O Seagull vence. Mas por uma margem de R$ 0,006 a R$ 0,016 por km em relação ao Dolphin Mini. Numa pessoa que roda 1.500 km/mês, isso é R$ 9 a R$ 24 de diferença mensal. Numa de 3.000 km/mês (perfil app), é R$ 18 a R$ 48.
Agora olha de outro ângulo: a diferença entre carregar em casa na tarifa branca (R$ 0,104/km no Seagull) versus carregar no eletroposto público (R$ 0,347/km) é R$ 0,243/km. Em 1.500 km/mês, são R$ 365 de diferença. Por mês. Todo mês.
Em outras palavras: onde você carrega importa 14x mais que qual dos quatro carros você escolhe.
Eu exploro essa conta com mais detalhe no comparativo de custo de recarga pública vs casa por km.
3. O preço de compra mais baixo não garante menor TCO em 24 meses
Aqui entra o argumento que a maioria ignora. O Seagull, até hoje, ainda não tem histórico de degradação de bateria no Brasil — foi lançado recentemente. O Dolphin Mini tem 2+ anos de dados. E o Ora 03, mais ainda.
Fiz a conta de TCO simplificado (24 meses, 1.500 km/mês):
| Modelo | Preço compra (ref. jun/2026) | Custo energia 24m (casa) | Manutenção estimada 24m | TCO 24 meses |
|---|---|---|---|---|
| BYD Seagull | R$ 118.000 | R$ 5.292 | R$ 1.800 | R$ 125.092 |
| BYD Dolphin Mini | R$ 119.000 | R$ 5.508 | R$ 1.800 | R$ 126.308 |
| GWM Ora 03 | R$ 139.900 | R$ 5.868 | R$ 2.000 | R$ 147.768 |
| Geely EX2 Pro | R$ 134.900 | R$ 5.760 | R$ 2.000 | R$ 142.660 |
O Seagull leva por R$ 1.216 frente ao Dolphin Mini em 24 meses. Mas aí vem a questão que me incomoda: o Seagull tem bateria LFP de 38,8 kWh com quilometragem de autonomia menor no dia a dia. Se você precisa de mais autonomia e usa o eletroposto uma vez por mês pra viagem, o cálculo muda — e a diferença de R$ 1.216 em dois anos não justifica abrir mão dos 58 km extras de autonomia que o Ora 03 entrega no mundo real.
O Dolphin Mini, nessa conta, é o equilíbrio: R$ 1.216 mais caro que o Seagull em TCO 24 meses, mas com histórico de bateria comprovado, rede de assistência consolidada, e o mesmo pacote de recarga (38,8 kWh LFP). Rodei com ele em rota SP-Campinas-SP com 4 pessoas e 22°C — a autonomia real que você encontra no comparativo de autonomia real do Dolphin Mini no Brasil confirma o que essa conta sugere.
O contra-argumento honesto
Minha tese tem uma limitação que não vou esconder: a diferença de custo por km entre esses quatro modelos é pequena demais pra ser o único critério de compra. R$ 24/mês de diferença não justifica sacrificar autonomia, tamanho de porta-malas, qualidade de acabamento ou rede de suporte se qualquer um desses fatores importa pra você.
Tem mais: o Seagull ainda tem disponibilidade limitada e histórico curtíssimo no Brasil. Eu compraria um Dolphin Mini com 30 mil km de histórico documentado por proprietários antes de comprar um Seagull zero-km com dois meses no mercado, mesmo pagando R$ 1.000 a mais no TCO de dois anos.
Onde isso te leva
Essa análise muda a conversa sobre elétrico de entrada de uma forma simples: pare de comparar preço de etiqueta e comece a perguntar quantos kWh por 100 km o carro consome. É o dado que o vendedor raramente menciona e que vai determinar sua conta de luz pelos próximos 5 anos.
Se você está decidindo entre esses quatro e quer um filtro mais amplo — incluindo garantia, depreciação e rede de assistência — o guia de quais elétricos compensam até R$ 150 mil é o passo seguinte natural. Lá a eficiência por km é um dos critérios — mas não o único.
A minha recomendação prática em junho de 2026: Dolphin Mini para quem vai carregar em casa e quer zero risco de surpresa. Seagull para quem está disposto a ser early adopter e já tem instalação de recarga garantida. Ora 03 e EX2 Pro para quem precisa de mais autonomia e tem orçamento pra isso — a diferença de custo por km não justifica o preço extra por si só, mas a autonomia adicional pode.
Fontes
- INMETRO — Programa de Avaliação de Conformidade de Veículos Automotores (PROCONVE), tabelas de eficiência 2025/2026 — https://www.inmetro.gov.br/consumidor/pbe/veiculos_leves.pdf
- ABVE — Associação Brasileira do Veículo Elétrico — relatório de mercado e emplacamentos 2026 — https://www.abve.org.br/
- Aneel — Tarifas de Energia Elétrica por distribuidora (consulta jun/2026) — https://www.aneel.gov.br/tarifas-consumidores-residenciais
- InsideEVs Brasil — rodadas de eficiência real (BYD Dolphin Mini, Ora 03, Geely EX2), 2025/2026 — https://insideevs.uol.com.br/
Escrito por
Carolina Lemes
Cobertura editorial independente de carros elétricos e híbridos no Brasil — autonomia real, recarga, montadoras e custo total.


